Moda

O Circo da Moda

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Por Carlos Rodrigues de Larcher, Paris

 

 Nas semanas que precedem os desfiles ou feiras de moda aqui em Paris ou em Londres, começo a sentir uma angústia subir até a garganta, não porque o meu trabalho será mal feito (faço o que posso e o que não posso), não que tenho receio de encontrar ou discutir com pessoas que nem sabem o que ali estão fazendo, o meu problema são com o que chamo « ratos de eventos ».

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Esses curiosos ou estilistas de primeiro ano, que durante o mês usam jeans e camiseta branca e desde que recebem ou usurpam convites para os desfiles já começam nas suas cabecinhas, cheias de seda e organza, a refletir o que irão usar nesse dia tão importante… Sério? Importante? Para quem?

Para mim sim, é importante, pois devo analisar, relatar, tentar descrever os abusos e sublimar as coerências, no entanto tenho a quase certeza de que aqueles fantasiados nesses dias estão lá mais para serem vistos do que para relegar ao resto da sociedade as suas observações. Existem mesmo os que, sem convite algum, ficam nas portas dos desfiles para serem vistos e quem sabe serem pegos em fotos por alguma revista japonesa de quinta categoria. Andy Warhol momentum.

Será que não percebem o mal que estão fazendo à moda? Que estão violando a base mesmo dessa profissão, onde criatividade e inventividade não tem nada a ver com burlesco e absurdo?

Que se fantasiando para os eventos de moda eles acabam induzindo em erro os mais leigos e perpetrando assim o fato de que a moda não é um trabalho, mas uma diversão? O que é absolutamente falso.

Misturar estilos e cores sem base alguma ou respeito, querer chocar com um casaco jeans sobre um smoking, colocar uma gravata borboleta ou um chapéu verde não te faz mais elegante ou inteligente.

 
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O que era uma atitude de jovens errantes virou um caso de sociedade nesses eventos, que mesmo os mais avançados de idade começam a aderirTenho certeza que fazem isso sem vontade própria, como zumbis em Dior, mas a verdadeira tendência agora é o « jeunisme », tudo para o jovem, o jovem rei, o jovem esta certo, criando assim uma certa tirania etária. 

DSC037571-700x1246Os jovens dirão: e dai? (me mostrando um dos dedos). Mas percebam, quando digo jovens falo dos 15/19 anos. Aos meus amigos acima dessa faixa, desculpem-me, mas o tempo passa.

Nada mais elegante que um homem vestido em homem, que uma mulher vestida em mulher ou que um travesti vestido.

Sei que os blogueiros, como a maioria nao podem assistir aos eventos (conta-se uma meia dúzia dentro das salas e 350 fora, na porta, com seus Iphones 5s dourado ou seus Galaxys, nao sei que número, branco, metralhando tudo o que vêem), aproveitam desses estranhos seres fantasiados em « moda » e gritam em suas paginas « tendência, tendência, tendência » … Faça-me um favor, à mim e a todos que ainda respeitam essa profissão, parem, tirem férias e pensem bem se é isso mesmo que querem fazer quando crescer. Nós precisamos de vocês. De verdade. No entanto sinto que não sabem disso, que ainda não perceberam o poder que tem em suas mãos e excluindo algumas exceções óbvias, a maioria interfere negativamente. E tudo isso com boas intenções. Mistério.

Como já disse uma vez e sem medo do ridículo da repetição, não é todo mundo que tem o gênio de um Galliano e que pode tudo tentar, porque a diferença entre um mestre e um follower é que o primeiro aprendeu com a sua própria experiência, que o mais importante na moda não é chocar ou ser visto, mas contar uma historia e se possível, com bom gosto.

O mundo quase sempre adere ao bom gosto.

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